19 de junho de 2017

Esperar.

No Sábado passámos a tarde na piscina em casa da Joana. Partimos de Lisboa super entusiasmados, com o carro a abarrotar de coisas. De manhã eu tinha comprado uma bóia redonda para o Matias e uma bóia em forma de flamingo para a Joana e ainda fiz um tiramisú para levar para o lanche.

O Bernardo veio ter cá a casa e fomos pelo caminho a conversar e a cantar. Eu enchi a bóia do Matias no carro e arrependi-me logo, porque não havia claramente espaço suficiente.

Passámos a tarde a nadar, a aparvalhar, a rir, a apanhar sol, a ver o Rússia - Nova Zelândia, a correr atrás do Matias (que por sua vez corria atrás da gata e da cadela da Joana) e a encher a barriga.

Chegámos a casa às oito e meia, demos um banho rápido ao Matias, deitámo-lo, arrumámos as coisas, fizemos um gin, sentámo-nos no sofá e eu abri o site do Expresso. Já tinham morrido 19 pessoas.

No dia seguinte o Pedro levantou-se para ficar com o Matias e eu só acordei às 11.30h. Quando abri o site do Expresso já tinham morrido 57 pessoas.

Hoje são já 64, e as palavras não saem. Conheço quem esteja no terreno desde Sábado. Vou lendo as actualizações pelas redes sociais e a angústia cresce cá dentro. Isto ainda só agora começou.

Este tipo de coisas sempre mexeu comigo, mas desde que sou mãe é uma sensação indescritível. Talvez porque antes pensava no que seria perder o Pedro, os meus pais, o meu irmão ou os meus amigos, e agora... Tenho um filho.

E nem sequer consigo avançar. Não consigo pensar nisso. A dor é tão grande que é inevitável reprimir esse pensamento.

Se dúvidas restassem sobre o que sinto sobre o meu filho (e não restam), os últimos dias vieram esclarecê-las. Se algo acontecesse com o Matias, eu morria. E pensar nisso enche-me de tristeza. Porque aquelas 64 pessoas morreram, mas levaram com elas as outras que cá ficaram e que morreram também.

Hoje aconteceu uma coisa horrível e tive o pior dia de que há memória no meu trabalho. E cheguei a casa, abracei o Matias, brinquei muito com ele, deitámo-lo, arrumámos as coisas e sentámo-nos no sofá.

Não jantei. Já bebi gin no Sábado, por isso está fora de questão beber novamente (além disso estamos sem gelo). Ontem já comi gelado, por isso está fora de questão comer novamente (além disso já não há gelado). Não fumo (mas apetece-me!).

Há dias em que o mundo é uma merda, e só nos resta aceitar isso. Amanhã vai ser melhor.

Amanhã é sempre melhor. Às vezes só nos sobra mesmo esperar.

4 comentários:

  1. força, Joana. amanhã será melhor. amanhã será melhor. repetimos as vezes que forem precisas até que amanhã chegue :)
    um abraço!
    (até amanhã <3 )

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  2. Só te digo que se estivesse aí contigo, dava-te um x-coração muito apertado, não há palavras,.....
    Beijinhos,
    Espero por ti em:
    strawberrycandymoreira.blogspot.pt
    http://www.facebook.com/omeurefugioculinario
    https://www.instagram.com/marysolianimoreira/

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  3. Um grande abraço, Joana! Que o hoje esteja a ser melhor!

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  4. Joana, espero que o amanha seja um dia melhor. Tambem trabalho na area da saude, embora nao seja médica, e tambem ja tive dias horriveis. Ja cometi erros. Ja aconteceram coisas tristes. Ja houve dias em que nao consegui comer nem dormir e cheguei super cedo ao trabalho porque a espera estava a torturar-me e so queria voltar ao trabalho para perceber as consequencias do que tinha acontecido. Nao sei o que se passou. Mas força.
    Em relacao ao que esta a acontecer em Portugal, penso exactamente da mesma forma. E fico com o coracao muito apertadinho. E muito triste. Muito mesmo. A imprevisibilidade da vida assusta muito. E nao imagino a dor de todos os familiares das vitimas.

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